Escritora canadiana Anne Carson vence Nobel da Literatura 2026
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O prémio Nobel da Literatura 2026 foi atribuído à escritora canadiana Anne Carson, anunciou a Real Academia Sueca de Ciências, esta quinta-feira.
"O prémio Nobel de Literatura de 2026 é atribuído à autora canadiana Anne Carson, pela sua obra ousada e criativa que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea", escreveu o organismo, na rede social X (Twitter).
A academia detalhou que, "ao longo de toda a sua obra, Carson explora, com um toque leve, as possibilidades da escrita, um processo através do qual o esboço literário se tornou de particular valor para ela".
"As suas colaborações com artistas visuais e coreógrafos, bem como com encenadores de ópera e teatro, demonstram a liberdade com que se relaciona com as expectativas literárias e os sistemas de regras. É isto que está na origem da importância notável que a sua obra, desde a década de 1990, tem tido no panorama internacional da arte e da literatura", complementou.
Nascida em 1950, em Toronto, Anne Carson publicou a sua tese de doutoramento em Estudos Clássicos, intitulada "Odi et Amo Ergo Sum", em 1981. Desde então, tem "conciliado a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades", sendo que "quase toda a sua produção literária tem-se centrado na interseção entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta por novos significados".
"Ela própria identificou a etimologia das palavras como o ponto de partida de toda a sua obra. As suas traduções do grego clássico podem ser consideradas obras independentes por direito próprio", considerou a Real Academia Sueca de Ciências.
O organismo salientou ainda que, através de constelações literárias, a autora afastou-se "da poesia lírica ligada ao 'eu' narrativo e inspirou novas formas de literatura contemporânea".
"Este método de escrita dá origem a obras lúdicas e irónicas que transitam não só entre a poesia clássica e a moderna, mas também entre diferentes géneros e formas de arte. [...] Carson descreveu uma vez o tédio como o seu arqui-inimigo, e é um estado que enfrenta com humor drástico e perspicácia", vincou.
A secretária permanente da Academia Sueca, Ingrid Carlberg, assinalou que já falou ao telefone com a escritora laureada, que foi "apanhada de surpresa" pela notícia, na Islândia, onde se encontra, mas que ficou muito feliz.
Entre os livros de Anne Carson publicados em Portugal estão "Águalisa", "Autobiografia do vermelho" e "Eros, amargo e doce: um ensaio".
As apostas colocavam não só Anne Carson no topo das listas, mas também a autora chinesa Can Xue e o australiano Gerald Murnane. O argentino César Aira e a mexicana Cristina Rivera Garza completavam o top do grupo sueco Betsson.
A britânica Ladbrokes também tinha Xue no topo, ainda que empatada com Carson. Seguia-se o japonês Haruki Murakami e Murnane, com o norte-americano Thomas Pynchon no mesmo patamar. A portuguesa Lídia Jorge estava mais abaixo, ao nível de Garza, do espanhol Enrique Vila-Matas, da norte-americana nascida em Antígua e Barbuda Jamaica Kincaid, da russa Lyudmilla Ulitskaya e da canadiana Margaret Atwood.
Ao lado da argentina Maríana Enriquez e do canadiano nascido no Sri Lanka Michael Ondaatje surgia o moçambicano Mia Couto. A brasileira Adélia Prado também constava da lista, com as mesmas probabilidades do israelita David Grossman e do norte-americano Colson Whitehead, por exemplo.
Recorde-se que Portugal teve, até ao momento, apenas um autor distinguido - José Saramago, em 1998 -, apesar de o nome de António Lobo Antunes figurar sistematicamente na lista dos preferidos pelas casas de apostas, mas nunca em lugares cimeiros.
José Saramago foi, também, o único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel da Literatura, apesar de ao longo dos anos terem aparecido propostas e apostas para escritores africanos de língua portuguesa e, sobretudo, brasileiros.
Outras línguas estão há vários anos afastadas dos prémios, como é o caso do italiano, cujo último vencedor foi Dário Fo, em 1997; o árabe, cujo único vencedor foi o egípcio Naguib Mahfouz, em 1988; o grego, que levou pela última vez o galardão em 1979, pelas mãos de Odysséas Elýtis; e o hebraico, em 1966, graças a um prémio atribuído ao escritor israelita Shmuel Yosef Agnon 'ex-aequo' com a escritora alemã Nelly Sachs.
Em 2025, o premiado foi o húngaro Laszlo Krasznahorkai. Desde 2018 que o prémio tem intercalado um homem e uma mulher, tendo sido concedido, em 2024, à sul-coreana Han Kang.
Atribuído pela primeira vez em 1901, o Prémio Nobel da Literatura pretende distinguir uma pessoa que, naquele campo, "tenha produzido a obra mais excecional numa direção ideal".
Este ano, cada uma das categorias receberá 12 milhões de coroas suecas (cerca de 1,1 milhões de euros), um valor que representa um aumento de 9% em relação ao que costumava ser o prémio monetário. Esta subida foi decidida pela Fundação Nobel como forma de assinalar o 125.º aniversário da primeira cerimónia de atribuição dos galardões.
As cerimónias de entrega dos prémios realizam-se simultaneamente a 10 de dezembro, em Oslo, no caso do Nobel da Paz, e em Estocolmo, nas restantes categorias.
[Notícia atualizada às 12h39]